sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

O estranho circo familiar.

Outro dia saí para comprar cigarros e obsevei um casal na rua; O homem segurava uma pequena menina no colo, ela deveria ter por volta dos 3 anos e dormia, ele talvez o pai, andava apressado na frente com o rosto fechado, seguido de perto por sua mulher cheia de bolsas, ambos discutiam.

Nesse frame cortado do meu cotidiano lembrei da minha deliciosa infância e de como calculava a razão das coisas e indo mais a fundo recordei de como pensava sobre meus pais.

Ter desde a infância seu caráter moldado de forma que você veja seus primos de mesma idade como inimigos mortais sem contar o fato de ser pressionado para ter notas, trabalhos, atos e comportamento perfeitos todos os dias.

Ter piercings e tattos eu tenho, fiz muita merda e afins, mas obrigatoriamente precisei manter um nível de "genialidade de vitrine" imposta que não é do meu fetio, somente perante a família pois em casa eu continuava a ser algo menor.

São protocolos sociais que eu não estava disposta ou preparada a protagonizar e realmente não culpo meus pais por isso, eles também foram pressionados para gerarem proles perfeitas que tornassem a ser adultos de sucesso.

Só acho desleal depreciar uma criança em casa e exalta-la para os outros na rua...
Sinceramente não tou afim de pagar de cristo, nunca fui nem um milímetro santa.

Isso tornou a ser a forma como minha mãe lida com tudo em relação aos filhos.
Hoje tenho plena noção disso e conhecer os mecanismos dessa guerra antiga me ajudou a criar escudos.

Caso é que não quero descobrir esse gosto viciante que eles aprenderam a gostar em tragadas fundas, de expor filhos como fosse um show de horrores para impressionar.

Não julgo nem de longe minha vida perto de um nível miserável, ela é ótima, tenho acesso aos meus exageros e deleites, obrigações e diversões.
Entretanto certas coisas são pirografas na memória e jamais se desfazem; passem os meses, passem os anos e fico a me perguntar quantos erros meus valeriam um erro dos meus pais quando eu ainda os via como deuses.

Existem muitas formas de amar, porém demonstra-lo creio ser a parte mais difícil. Amor é algo opressor por si só, espero algum dia conseguir encontrar uma forma de apresenta-lo melhor e mais bonito fazendo com que os atos dele sejam menos doloridos.

A vida adulta nos chega somente para mostrar o quanto ainda somos crianças e cheios de razão e a gente queria tanto ser gente grande que só me resta esperar que talvez no futuro depois de hoje nos sobre, com alguma sorte, um pouco mais que o arrependimento por desejos infantis.

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